Eu Fragmentada

Eu Fragmentada

Eu escrevo para dar vazão, perante a falta de coragem que eu tenho mediante as diversas coisas que costumo enfrentar no meu dia a dia. Eu escrevo porque, necessito cuspir para fora da garganta todos os nós que me prendem. Eu escrevo, pois me reconheço como detentora de uma força maior que me impulsiona a passar para o papel, tudo aquilo que as outras pessoas querem não ver.

Quando eu resolvi ir além deste blog e jogar ao mundo todas as coisas da qual eu sempre falava através das palavras, eu pude perceber o real poder que a escrita tem de transformar a vida das pessoas. Pude ver nitidamente, que as pessoas se sentem acolhidas e representadas quando leem algo que elas tanto queriam dizer, mas por medo, insegurança, trauma, desistência, nunca tiveram coragem de falar. Recentemente, muitas pessoas me procuram e dizem que também escrevem, mas mantêm todas as palavras em segredo absoluto, com medo de expor o mundo aquilo que elas tanto sentem. Eu vejo um tanto de mim, em todos aqueles olhos que me encaram e expressam seu medo perante as palavras, eu sempre volto há mais de dez anos atrás, quando eu escrevia tudo a lápis com uma fúria de mil guerreiros, louca pra tirar do meu peito toda a solidão, desamor, raiva, angústia, fragilidade, timidez e não aceitação de mim mesma. Vejo nos olhos dessas pessoas, tudo o que eu era e ainda carrego bem fundo dentro de mim. Por mais que hoje eu tenha facilidade de colocar pra fora tudo aquilo que tanto me dói e que tanto me indigna, sim, eu ainda sinto um medo absurdo das palavras.

Ao decidir fazer da minha escrita uma forma de resistência, eu acabei levando a minha literatura a outro nível e passei a empregar não só as indiferenças e invisibilidades que todos estão acostumados a ignorar, eu passei a dar voz, a toda forma de luta que a sociedade sempre tenta nos impedir de ganhar, nas constantes batalhas contra a vida. Então, hoje eu não escrevo só pra mim, por mim ou sobre mim, todos os meus fragmentos são partes de um quebra-cabeça muito maior do que eu ou qualquer outra coisa nesse mundo. Meus fragmentos: são todos os escritores que começam a escrever e desistem no meio do caminho, porque não tiveram a força e a impulsão que eu recebi, todas às vezes que eu quis desistir de escrever. Meus fragmentos: são todas aquelas garotas que tem de enfrentar o medo de ser quem são e fazer de suas vidas o que elas bem entender. Meus fragmentos: são todas as pessoas negras que sofrem com o racismo estrutural todo santo dia. Meus fragmentos: são toda a comunidade Lgbtq+ que morre diariamente. Meus fragmentos: é toda a depressão e ansiedade que mais da metade da população do mundo possuem e tem de enfrentar sozinhos seus demônios, porque todos ao redor deles jogam constantemente em suas caras que tudo o que eles estão sentindo e passando é frescura, é vitimismo ou, não é algo que se deva dar muita importância.

Então, quando eu resolvi juntar em um livro os meus fragmentos e intitulá-los de: Eu Fragmentada, eu não escrevi apenas sobre mim, eu escrevi sobre todos nós que sempre carregamos o enorme fardo nas costas apenas por sermos quem somos, e sentir o que sentirmos, e amar da maneira que amamos. Cada frase e cada fotografia contida nessa obra, não é apenas a construção de mais um livro que se acumulara no meio de tantos outros na prateleira, cada detalhe perante a cada linha escrita, é um todo de mim perante a imensidão do mundo.

Isso aqui não é uma história inventada e eu não sou um personagem comum.

Atenciosamente,

Maria VitoriaA ESTRANHAMENTE

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