Seu Alfred Divinu’s – Um pouquinho antes do começo #2 temporada

Publicado por Maria Vitória em

Com o som de pássaros, motos e um bate-papo infernal entre muros vizinhos.

Já que seus pés pisam sobre novo lugar, que dele se faça morada. Que nele deixe pegadas sólidas, marcadas de uma estada intensa e frutífera. Que deste instante para o futuro, se faça luz mesmo na terrível e furiosa tempestade e que cada enchente te convide a pensar sobre a profundidade do bueiro, para além de seu cheiro. Fique aí assim mesmo. Não ouse levantar. A luz lá fora é forte pra cacete e vai derreter seus olhinhos acostumados aos breves instantes em que o sol encontrava espaço por entre os imensos prédios de outrora. Também não te quero perguntando quem eu sou. Só escuta. Vou te contar tudo antes que abra os olhos. Mas vou ser objetivo. Quem quiser saber todo caminho que vá para a temporada anterior. Aqui é o após. O pós, o depois. Aqui tudo se funde e você, TENHO CERTEZA, HOMEM DE DEUS, não vai entender nada. Você sabe que vive em um novo lugar. Ele é bem diferente, as pessoas são diferentes das que moravam próximo ao seu corpo antes. Aqui são mais vivas, esperançosas. Festeiras, alegres. Sem ser caricatas. São mais humanas. Você sabe de quem é a cama que agora dorme e o teto que te faz sombra. Sabe também quem te alimenta sorrindo, sem cobrar nada. Por favor, não esqueça disso. Não! Não, bicho burro! Não abra os olhos. Deixa suas cabeça se organizar e falo isso pensando o quão absurdo é sugerir que sua cabeça se organize. Gargalho agora. “Organizar”. Sabe que a noite de ontem foi real para você por uns 30 minutos. Comia carne, fingia rir dos que tanto riam de você. Se meteu a pôr cerveja na barriga e fez atrocidades, rapaz. Eu hein. Que vergonha. Você estava indo tão bem no processo de se adaptar ao novo lugar. Pois bem. Bebeu. Bebeu. Bebeu igual quem andou pelo deserto. Ficou alegre e inventou de sambar. Sabe que não samba, mas lá foi se meter a sambar e nos primeiros 5 minutos, já perdera o ritmo 50 vezes. Mas ficou. As pessoas te filmaram, mas exijo que não faça nada. Porque foi de morrer de rir. Foi de cagar nas calças de rir, meu amigo. Na vez 51 que perdeu o ritmo, você se enrolou todo e tanto que seu corpo foi que foi pra trás e suas costas arrebentaram docemente a mesa tão bem preparada com os pratos daquele maravilhoso rateio. Tudo ao chão. Em instantes havia outra mesa no lugar e lá você se metendo a riscar chão com pé. Alfred. Derrubou a mesa, mexeu com mulher, chamou de “Graça”, limpou a boca na toalha, confundiu coxinha com farofa, fez cocô e, na ausência da querida descarga, não teve coragem de encher um miserável balde. Inventou de tocar pandeiro e fez geral descobrir que não bebe. Que não pode beber. Hoje, amanhã. Nunca. Nem na casa do caraio! Ainda quis se pegar de porrada com quem sabe. Aí já viu. Mas sua cara tá marcada não. Porque não deixaram e isso você tem que saber. Porque tu ia entrar no cacete ainda mais. Fica deitado porque não aconteceu. As crianças amaram sua amiga capivara. Subiam nela, desciam. Fingiam ser rodeio. Tinha que ver. Quando você se meteu a macho, quase botaram ela no fogo. Foi aí que te levaram embora. Porque sua sorte, companheiro, era estar longe de casa. E ser muito querido por quem te levou. Bom… o resto você vai sabendo agora aos poucos. Mas não levanta do nada. Levanta devagar. E só depois.

Alfred ouvia aquela voz e murmurava o peso presente em sua cabeça. Inventaram, talvez por graça ou raiva, amarrar em suas orelhas 4 toneladas de qualquer coisa. E o contato com aquele travesseiro representava afastar, mesmo que nunca totalmente, o fatal que viria.

Não levanta! Pelo menos não de súbito. Vai ser pior. Permanece aí que, quem sabe, ao levantar tudo fica mais fácil. Interessante como ainda é ajudado. Eu, sua voz da consciência, aqui, gritando pelo seu bem-estar. Vai ver que você é protegido. Que gostam de você do outro lado e cuidam de sua vida. Sei lá. Dá impressão que sim.

Dadas palavras tão amorosas, Alfred retornava ao caminho do sono. Levemente. Suavemente. Como um passar por plumas após 5 round com o diabo. Seu sono foi o tomando por inteiro, devagar. Retornara ao estado de paz. A cama abraçando seu corpo e…

– SEEEEEU ALFREEEEEEEEEEEEEEED!!! OH SEEU ALFREEED! TÁ VIVO! CÊ TÁ VIVO, MEU DEUS?

Alfred deu um pulo desesperado e sentiu sua cabeça rachar!

Eu tentei ajudar… boa sorte!

– SEEEEU ALFRED! LEVANTA LOGO DAÍ, HOMEM! VEM TOMAR CAFÉ.

Era o Cleiton gritando.


Guigo Ribeiro é músico, ator e escritor. Autor do livro O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou, escreve semanalmente para o portal Desacato – A Outra Informação.

Você pode acompanhar a primeira temporada completa do Alfred, clicando AQUI, além de conhecer outras publicações do autor!


Maria Vitória

Expondo a realidade de uma forma cinza e poética, para não me tornar mais um padrão normativo!

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