Carta para meu autor favorito

Buk,

Minha cueca está rasgada na bunda e o tecido da cadeira de plástico faz suar o buraco mais escuro. Há dias venho acordando cedo pra caralho para produzir coisas, editar coisas e falar com pessoas que não conheço. Todo santo dia eu vejo Carolina se vestir de forma apressada entre 6:50 e 7:10 da manhã, enquanto eu tenho os raios de sol inundando minha janela que nunca é fechada durante a madrugada. É sempre o mesmo ritual de calejar os dedos martelando em teclas pequenas, encarar a página em branco, olhar pela janela, obsevar o topo das casas e dos prédios, ouvir os motores arrancando de lá pra cá e beber dúzias de cervejas pretas vencidas.

Continuar lendo “Carta para meu autor favorito”

Carta que nunca será enviada

São Paulo, 30 de setembro de 2018.

M.

Os louvores católicos estão à todo vapor na garganta de pessoas, crentes que serão salvas por Deus. Aparentemente, tudo indica que o sol não se fará presente no dia de hoje. Estou com minhas mãos ressecadas e enferrujadas de tanto esfregar panelas com palha de aço no primeiro período da manhã. Tenho que amarrar meu estômago num nó apertado para tapear a fome, porém, estou tão desesperada para mastigar um destilado que estou a triturar os dedos na espera que minhas vertigens se acabem.  Continuar lendo “Carta que nunca será enviada”

Nicole

Querida, Nicole!

Teus seios sambam fartos em frente aos meus olhos feridos e eu penso no quanto minhas mãos ressecadas seriam espinhos mediante teu corpo de pele fina.  Continuar lendo “Nicole”

Garota Bukowskiana

Querida amada, observo as chamas em capas pretas com tipografias douradas enquanto uma pequena parcela do sol cobre as sombras de minhas mãos negras após cinco minutos de chuva. Parece que há outra de mim dentro de mim mesma, pois o grande peso da barriga soma a falta de fôlego e a dormência de minhas pálpebras. Sinto que preciso me subtrair, mas nunca existe divisão o bastante para que o mundo me impeça. Continuar lendo “Garota Bukowskiana”

Sinto falta de mim, em mim

Olá amada,

Útero berra. Chuva despenca. Livros empilhados ao chão. Prateleiras vazias. Fim de mês.

Mudar é uma arte. Mudei… Continuar lendo “Sinto falta de mim, em mim”

Estou sozinha de olhos abertos para a escuridão

Olá, amada!

Já notou como as paredes são frias?

Por dias inteiros tudo corria bem, eu conseguira produzir uns bons capítulos de meu novo romance, e não, dessa vez eu não escrevi um livro inteiro sobre você. Poderia? Sim, poderia. Mas… Desta vez não fui capaz de escrever sobre as flores que você me dava ou sobre a brancura de sua pele macia, pois, especificamente nessas últimas duas semanas a luz não brotou através da janela e tudo o que eu pude acompanhar de perto, trancafiada nessa casa solitária foi a escuridão, uma grande massa de ar frio alojada em meus pulmões e uma negritude louca para abocanhar meus medos. Continuar lendo “Estou sozinha de olhos abertos para a escuridão”

As horas estão escritas num futuro impossível

Querida, amada minha.

 

Repouso meu corpo embaixo de uma goiabeira em seu estágio inicial contemplando os pequenos frutos em formação e as folhas esverdeadas que se alastram pelos galhos e se deitam pelo chão. Penso nas horas que voam breves, escritas num futuro impossível… Levo uma fruta a boca, brinco de adivinhar quais são os animais nas nuvens, ouço os pássaros dialogarem entre em si em sua própria língua nativa, respiro fundo… Expiro… Deixo então as memórias fluírem juntamente com o oxigênio que se esvai boca a fora. Continuar lendo “As horas estão escritas num futuro impossível”

Existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada

Cara, amada minha.

 

O fogo invisível queima o restante do que ainda me sobra. Desenlaço as outras cartas por correspondência e as jogo em cima de minha bagunça descontrolada, casando as cartas com os papéis rascunhados, livros e meia garrafa de Domecq.

Por aqui quase beiramos a primavera, porém o sol arde como a brasa do inferno. Não há lenços o suficiente para sugar o suor do buço, nem cuecas que não transpirem mais do que maratonistas em dia de São Silvestre. Tudo aqui caminha de uma forma meio réptil… Os dias rastejam como cobras traiçoeiras e picam tão duido como os escorpiões da África. Uma grande selva árida generalizada, entende? Continuar lendo “Existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada”

Sua grande novidade

Minha querida, eu estive pensando… por onde andam as mulheres que já estiveram em minha cama? As que se aconchegaram em meu peito? As que disseram que me amavam?

Por quantos corpos mais elas se perderam até se encontrarem aonde estão agora? Quantas loucuras profanas elas tiveram que se submeter em troca de um pouco de amor ou uma trepada sem graça com um pouco mais de cinco minutos de duração? Continuar lendo “Sua grande novidade”