Carta que nunca será enviada

São Paulo, 30 de setembro de 2018.

M.

Os louvores católicos estão à todo vapor na garganta de pessoas, crentes que serão salvas por Deus. Aparentemente, tudo indica que o sol não se fará presente no dia de hoje. Estou com minhas mãos ressecadas e enferrujadas de tanto esfregar panelas com palha de aço no primeiro período da manhã. Tenho que amarrar meu estômago num nó apertado para tapear a fome, porém, estou tão desesperada para mastigar um destilado que estou a triturar os dedos na espera que minhas vertigens se acabem.  Continuar lendo “Carta que nunca será enviada”

Que mundos te guardem e te apartem de mim…

O mundo é vasto e infinito. Quem diabos sabe dizer qual a melhor localidade para se sentar com a coluna ereta ou com o tronco em posição horizontal para escrever algo além daquilo que a mente diz para rascunhar?

Já tentei de tudo, mesmo esse tudo não sendo (quase nada). Já me dispus a trocar um quarto inteiro de lugar, já fui à feira com caderno e lápis na mão, já me fixei em bibliotecas municipais, já me desloquei a cemitérios, já me sentei ao chão em estações de mêtro na hora do rush, já visitei titias só para usar o cenário de suas casas como palco para minhas escritas, já viajei para outras cidades, já troquei de namoradas para ganhar inspirações novas, já fiquei dias sem dormir quase beirando a loucura e a demência, já escrevi em ônibus lotado passando a cem por hora em cima de lombadas, já fiz de tudo um pouco, de pouco um tudo e, ainda assim, não encontrei o lugar ideal para me sentar e escrever. Continuar lendo “Que mundos te guardem e te apartem de mim…”

A ligação que nunca consegui finalizar

Embaraço as palavras do mesmo modo que embaraço o sorriso e camuflo o olhar.

Às vezes não é perceptível, mas seria tão mais fácil se de longe você pudesse sentir que meus instintos procuram por você.

Alguém diz: “Você está esperando por alguém?”

E eu digo: “Não.”

Alguém diz: “Tem certeza?”

E eu digo: “Absoluta.”

Por que mentimos para nós mesmos? Por que ao menos para nós não podemos escancarar a verdade?

Esse é o mal do século. Esse grande esconde-esconde individual. Continuar lendo “A ligação que nunca consegui finalizar”

Sua doce menina

Querida amada, meu útero se contorce numa raiva descomunal. Nas veias o sangue borbulha, espirrando um liquido quente e altamente inflamável. Sinto a dor como um orgasmo interrompido, e praguejo para deus uma maldição tão fudida, que nem mesmo ele possa converter essas palavras.

Raiva hoje. Raiva amanhã. Raiva para sempre.

Faz sol lá fora, céu azul com muitas nuvens brancas… é estranho, só visualizo dor em cada uma delas. Hoje não será um bom dia, pois a lástima pela presença em vida me consome. Sabe, hoje foi dia de consulta com a psicóloga, e eu falei que estava tudo bem, e está? Ou eu queria que estivesse? Continuar lendo “Sua doce menina”