@a_estranhamente

Eu, mulher, agênera!

Atento-me ao rubor dos dias insanos, bebericando cerva gelada, com os bicos despontados, ouriçados e enrijecidos.  Vejo lá longe, algo despontar entre esquinas e aqui dentro do que eu acho que sou, borbulha alguns mares de indecisões e descobertas abrupta. Tudo, absolutamente tudo ultimamente me faz indagar sobre o meu papel social e a que caixa pertenço eu, perante a esta vastidão de percalços soturnos de uma vida liberta e ao mesmo tempo enclausurada. Que papéis devo interpretar, se como detentora de carne humana, há sempre coisas por demais a me devorar em colheres de sopa?

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segunda-feira nada morna

Segunda-feira nada morna

Uma massa grossa de ar quente paira no ar transpingando do aglomerado de corpos. Filas e mais filas. Pessoas cabisbaixa com seus smartphones sondando algo menos desprezível para curtir no Facebook. Ao meu lado uma mulher branca, loira, na faixa dos quarenta anos, puxa em direção ao corpo sua bolsa, após eu esbarrar nela. Me olha assustada como um pardal ao despencar do ninho. Respiro uma massa quente, úmida, humana e, apenas sigo meu caminho.

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A volta às aulas e a ansiedade

A volta às aulas e a ansiedade

Depois de dois meses longe da habitual rotina, hoje voltei oficialmente para a faculdade. Acordei perto das oito da manhã com o céu cinza e pequenas gotas de chuva. Eu tinha dois contos para revisar e dois módulos da minha especialização em álcool e drogas para fazer. Levantei, desliguei o ventilador, fui até o banheiro e me deparei com os tapetes todos embolados: o maldito gato havia cagado nos tapetes! Os botei pra lavar, mas antes, trucidei o gato com meu mau humor matinal. Me recompus e voltei para o quarto-escritório. Enquanto o computador ligava, rolei os dedos entre as redes sociais para ver o que estava acontecendo. Não sei por que faço esse mesmo ritual toda manhã, abrir o Instagram, verificar quem deu um coração nas postagens, deixar um coração nas mensagens do direct, contabilizar a quantidade de perfis que visualizaram os Storys…

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Observar em silêncio é melhor que dizer algo

Observar em silêncio é melhor que dizer algo – poderia ser uma das máximas da minha vida. Estou plenamente convicta que esta é uma das atitudes mais sábias que terei aprendido ao longo das minhas quatro décadas.

A verdade é que até há algum tempo eu não era nada assim. Poderia dizer que, quando era “Menina e moça”, era aquilo que em Portugal se chama de “uma rapariga sem papas na língua”. Sempre gostei de falar, de exprimir as minhas ideias, os meus pontos de vista. Sempre gostei de contar aos outros sobre aquele livro ou aquele filme que tinha visto e que era tão, mas tão bom, que tinham absolutamente de ler ou ver. E assumo que me dava um prazer enorme perceber quão persuasivo era o meu discurso, quando a pessoa me vinha falar do livro ou do filme que tinha acabado por ler/ ver por causa da minha crítica positiva. Continuar lendo “Observar em silêncio é melhor que dizer algo”

Vassouras pretas

O ar me falta até quase meus olhos saltarem para fora de meus buracos, sinto o cérebro sambar de forma torta dentro de uma enorme superfície, posso sentir a temperatura que as sombras possuem quando estão prestes a te arrastar para a morte. Caio então, em poços construídos pela repetição das causas. Boca seca, mãos congelantes, arrasto o dorso por debaixo de pele morta. Continuar lendo “Vassouras pretas”

Maratone-se #2

Pés podres e coluna estragada ao final do dia. Hoje foi dia de ensaio fotográfico no centro de São Paulo e o modelo da vez foi um ex colega de turma e futuro colega de profissão, Guilherme Gatti. Acertamos no relógio as onze horas da manhã pontualmente no inicio da praça Franklin Roosevelt. Fazia um pouco de sol, apenas o suficiente para estourar a iluminação das fotos e me deixar com o nariz e a testa suando em bicas.

Eu gosto de ficar atrás das lentes, tanto de modo colorido quanto de modo preto e branco, mas confesso, tenho uma enorme inclinação por fotos preto e branco, principalmente aquelas que destoam lindamente para o cinza…  Continuar lendo “Maratone-se #2”

Cheiro de mofo e dentes separados

Proporções de você se escoram em meus ombros derramando o perfume que usava em nossas juventudes. Meus olhos doloridos esguicham água salgada enquanto meus ouvidos sobrevoam para fora das janelas de plástico. Sinto sua voz desmanchando por entre meus dedos e meu útero dói constantemente. Vertigens acaloradas tomam conta de meu ser que hoje sente-se tão ausente, sente-se acanhado por sustentar ossos, sangue e pele. Continuar lendo “Cheiro de mofo e dentes separados”

Desafio Literário | O que a vida fez de mim?

Último dia de Desafio Literário e na boa? Que DESAFIO! Recebi inúmeros trabalhos de pessoas muito articuladas e muito boas. Papai, como foi difícil escolher somente 10 autores. A cada nova linha que eu iniciava eu conseguia me projetar para além de mim, aposto que todos os leitores do desafio sentiram algo a mais ao ler cada novo autor.

Quando se trata de literatura o assunto fica sério. A coisa fica doida e a experiência a uma nova leitura é sempre um orgasmo sem preliminar. Falando em orgasmo, estou aqui me colocando a pensar nos escritos da Fernanda Abreu… O blog dela foi um puta achado, e mais do que isso, aposto que daqui a algum tempo escreveremos um livro juntas de tanto que trocamos e-mails com textão gigante sobre as nossas tão diversas realidades.

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Desafio Literário | O que a vida fez de mim?

O desafio literário está quase chegando ao fim e o que eu aprendi com as leituras adquiridas?

Eu aprendi que por mais que lutemos para sermos diferentes uns dos outros, somos mais semelhantes do que imaginamos. Cada história de vida aqui relatada me leva a algum momento de minha própria história, principalmente este texto da Darlene porque me faz recordar de todos os sonhos e projeções que eu já fiz a mim mesma e nunca se realizaram, mais do que isso até, a satisfação pessoal que eu costuma depositar nas conquistas pessoais que nunca vieram e me deixaram frustrada e infeliz. O maldito sonho de ser alguém na vida e ter o máximo de coisas que a gente puder e ainda dormir serenamente repousando sobre um status que jamais será alcançado. Mas, ainda bem que eu conheci muitos autores novos com ideias revolucionárias, tive alguns ótimos professores de esquerda na faculdade e adquiri muito conhecimento sobre mim mesma apenas observando a humanidade em silêncio.   Continuar lendo “Desafio Literário | O que a vida fez de mim?”

Desafio Literário | O que a vida fez de mim?

Quando recebo uma mensagem de algum seguidor que diz que o modo como ele escreve é parte das coisas que ele absorveu dos seus textos e da forma crua e cinza que eu costumo descrever a vida, isso é gostoso para um caralho… Quantas vezes nós mesmos nos colocamos descrentes de nossas próprias capacidades com relação as coisas que a gente profana em nossos textos? Vez em sempre estamos nos atacando de forma individual pregando nossos próprios pregos em caixões de madeira podre só pela fragilidade de nosso próprio ego.

Hoje em dia quando eu me pego lendo os textos da Renata, eu vejo o quanto ela cresceu e amadureceu e enxergo um pouco de mim em cada linha sofrida e por mais que todo sofrimento e solidão seja uma coisa mundialmente ruim, eu sempre gosto de encarar essas desgraças mundanas como uma grande argila a ser lapidada pela arte de minhas palavras.  Continuar lendo “Desafio Literário | O que a vida fez de mim?”