Varrendo os pretos para debaixo da calçada

O sol se mescla em meio a nuvens de chuva. Caminho apática e com o útero em dores pelas calçadas que há anos meus pés tanto percorrem. A vida continua frenética e as pessoas bordam um zigue-zague de forma proporcional.

Duas motos, dois homens brancos de farda, um jovem negro. Continuar lendo “Varrendo os pretos para debaixo da calçada”

Na favela tem gato preto

Havia uma viela e uma boca de fumo. Whisky, cocaína, cerveja, armas. Do nada da escuridão, Washington brota sorrindo com um brilho nos olhos de quem já havia me visto pelas ruas de terra. A suas costas, dois homens ainda se valiam pelo escuro enquanto cabisbaixos, seguravam sacos brancos de plástico, com farinha branca em pequenas cápsulas transparentes. Continuar lendo “Na favela tem gato preto”

O lugar em que escrevo

Corpos em formato de mar dão gás as linhas que adiante surgem em formato de redenção. Pés coloridos, ocos e brilhantes transitam pelos espaços que meus textos circulam, hora uma voz começa uma crônica, hora uma boca apoiada em latas de lixo mastigando a fome é tema de uma poesia de tonalidade crua. Ondas acaloradas que escorrem do amontoado de vida bailam de forma nefasta pelo ar que sutilmente me abraça apertado, meu esqueleto se estremece ao contato do vapor quente e úmido, meus lábios salivam um líquido pegajoso, minhas narinas se desplugam e correm para longe e minha mente evapora-se e voa… Continuar lendo “O lugar em que escrevo”

Que mundos te guardem e te apartem de mim…

O mundo é vasto e infinito. Quem diabos sabe dizer qual a melhor localidade para se sentar com a coluna ereta ou com o tronco em posição horizontal para escrever algo além daquilo que a mente diz para rascunhar?

Já tentei de tudo, mesmo esse tudo não sendo (quase nada). Já me dispus a trocar um quarto inteiro de lugar, já fui à feira com caderno e lápis na mão, já me fixei em bibliotecas municipais, já me desloquei a cemitérios, já me sentei ao chão em estações de mêtro na hora do rush, já visitei titias só para usar o cenário de suas casas como palco para minhas escritas, já viajei para outras cidades, já troquei de namoradas para ganhar inspirações novas, já fiquei dias sem dormir quase beirando a loucura e a demência, já escrevi em ônibus lotado passando a cem por hora em cima de lombadas, já fiz de tudo um pouco, de pouco um tudo e, ainda assim, não encontrei o lugar ideal para me sentar e escrever. Continuar lendo “Que mundos te guardem e te apartem de mim…”

Rosas vermelhas não alteram tempestades

O útero dói. Gota a gota uma enorme poça de sangue se forma e percorre o labirinto das coxas, canelas, pés… Sinto-me quente nesta sexta-feira tão fria enquanto uma garoa fina despenca do céu camuflando-se em minhas lágrimas mornas.

Debruçada em uma ponte observo a cidade, conto os passos dados por segundo na esperança de esquecer-me de mim por um breve infinito de tempo. Ao fechar os olhos, visualizo rosas vermelhas desabrochadas, dóceis, femininas… Continuar lendo “Rosas vermelhas não alteram tempestades”

– É uma rosa rubra a autora dessas linhas

“Você nunca vai aprender a ler e a escrever. Você é burra demais pra isso, eu desisto de ensinar alguma coisa pra você garota.”

Engraçado como essa frase ainda me acompanha. Como depois de tantos anos eu ainda posso ouvir em meus ouvidos as palavras duras e cruéis de M. Continuar lendo “– É uma rosa rubra a autora dessas linhas”

Derivações de uma sexta-feira

3:12 da manhã. O sono não me invade, ao contrário, me mutila a mente, me castiga a carne. Penso nas atrocidades da vida, na personalidade e no egocentrismo das pessoas, em idas ao psicólogo, em porres de cerveja, em lâminas rasgando meus pulsos.
 
Tudo, tudo agora gira em torno de meu egoísmo, desde as garrafas desalinhadas até as pequenas coisas escritas em papeis amassados dentro das gavetas de minha escrivaninha, tudo gira em torno de meu egoísmo de certa forma.

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— escuto o silêncio de boca-a-boca, de porta-a-porta

As portas soam como sinos de fabricas. Os cartões de ponto são demarcados e a liberdade atinge peitos dilacerados pelas horas hostis e deprimentes.

Atraso por atraso e os segundos correndo contra minha própria vida. Precisei pegar um ônibus qualquer para chegar até o centro, meu estomago doía pelos milésimos percorridos, encontrei bilhetes na mochila que tinha ganhado de um morador de rua, um amigo me puxou pela mochila enquanto eu passava apressada pela estação de metrô e disse: “Eai, lixo”. Continuar lendo “— escuto o silêncio de boca-a-boca, de porta-a-porta”

– A leitura que faço de mim mesma

Olhos pousados nas janelas com uma gota a pender da retina esquerda. Miragens de mim mesma correm na contramão de meu próprio corpo e espírito. É como se tudo o que sou se refletisse nessa janela respaldada pela penumbra das estações da vida. Os tímpanos se ensurdecem com o grave que toca a alma, come o ventre, pisa no próprio raciocínio lógico do termo evasão. Tudo o que eu sou é silvestre, é extinção, é mata fechada para expedição infantil militar depredatória. Bambu por bambu, cipó por cipó, galho por galho, e eu aqui de novo, pulando as arestas de uma selva desmatada pela hipocrisia. Continuar lendo “– A leitura que faço de mim mesma”