Deve haver haveres para que a gente siga existindo de, Laila Oliveira

Era domingo, manhã arrastada pela insólita vontade de seguir na existência. Olhava eu para os tantos e irremediáveis livros, compostos em filas desconexas nas prateleiras cheias de pó. Eles, todos eles, encarando—me como se culpa eu tivesse por me ausentar por tanto tempo de suas páginas—palavras. Olhei pela janela, observei o topo dos telhados, adentrei algumas casas na esperança de saber um pouco mais sobre a vida dos que ali moravam. Nada! Apenas a escuridão e o vazio na mutua harmonia do domingo frio, de pouco sol e nuvens.

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Promessas de adulto

Pela escritora: Bia Tannuri

A idade avança, responsabilidades se multiplicam, chegam as marcas inevitáveis do tempo, que insiste em não dar trégua, dificultando o reconhecimento do rosto refletido no espelho, que encara e impõe sua imagem certeira sem margem a dúvidas a quem se refere.  

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O LONGO PERCURSO DAQUI ATÉ ESTOCOLMO

Por, Michele Fernandes

Na Academia Real de Ciências da Suécia, ouve o seu nome ser chamado. Percorre o longo corredor sobre um tapete vermelho e sob o calor esfuziante dos aplausos, aquecendo os cinco graus negativos lá de fora. Após ser laureado, um microfone se instala à sua frente. É este o momento de fazer o seu discurso. Tímido, havia preparado uma folha de caderno com o resumo da sua contribuição científica e algumas frases de agradecimento. Enquanto olhava pra sua família orgulhosa, todos com os olhos gotejantes de emoção, começou a proferir um breve, porém emocionado discurso em sueco.

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3 Poemas do livro: Depois do Outono de, Érika Freire

Depois do Outono, o livro de poesias da escritora e jornalista Érika Freire, lançado em 2018 pela editora Urutau.

Há algum tempo atrás, eu apresentei a Érika pra vocês aqui no blog, se você ainda não viu, aqui está o dia da estréia dela. Nesse dia, contei um pouco sobre quem é Érika Freire, o que ela faz, do que ela gosta e comentei um pouco sobre seu livro, Depois do Outono.

Hoje, eu trago pra vocês, 3 poemas de Depois do Outono para que vocês possam apreciar essa belezinha e conhecer melhor o trabalho da autora. Confiram:

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Gabyanna Negra & Gorda, de Gabriela Rocha

Gabyanna Negra & Gorda, de Gabriela Rocha

Era a primeira vez em meses que eu tirava o dia de folga só para mim. Me permitir ficar até depois do meio-dia na cama a folhear páginas e a transcorrer por histórias que eu nunca pude escrever. Ao escolher Gabriela Rocha, para saciar minha fome de leitura, eu não imaginava que me olharia diferente após o termino de um livro escrito por uma mulher negra.

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Eu Fragmentada

Eu Fragmentada

Eu escrevo para dar vazão, perante a falta de coragem que eu tenho mediante as diversas coisas que costumo enfrentar no meu dia a dia. Eu escrevo porque, necessito cuspir para fora da garganta todos os nós que me prendem. Eu escrevo, pois me reconheço como detentora de uma força maior que me impulsiona a passar para o papel, tudo aquilo que as outras pessoas querem não ver.

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Borboletas na chuva de, Mara Vanessa Torres

Chove forte. Gotas autoritárias despencam do céu sem bater na porta ou enviar carta de apresentação. Tudo pesa. O ar, a própria respiração, a cabeça, o corpo, a alma. Acima de tudo, a alma; fogo fátuo de nossa crença que derruba sobre os ombros uma tonelada inteira e tudo o que podemos fazer é movimentar as pálpebras de cima para baixo em círculos eternos de paz. Chove do lado de dentro da minha casa. Gastei horas na rua vagando em busca de soluções enquanto o sol reinava quente, auspicioso. A forte luz ofuscando a visão, clareando ideais que nem eu mesma sabia que tinha, apontando caminhos. As estradas já iluminadas são muito mais fáceis de seguir do que empreender uma busca por lamparinas em armazéns velhos, mesmo que essas lamparinas esquecidas produzam uma luz própria, alimentada ou apagada por você.

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