COISA RUIM

Pela colunista, Mara Vanessa Torres

Janeiro de 1996. Estávamos no começo das férias de verão. Para o nosso grupo, onde o mais novo tinha cinco e o mais velho treze anos, nada poderia ser mais importante do que o recesso escolar. Era tempo de esquecer que o relógio tocaria às cinco da manhã para nos acordar e voltaria a gritar escandalosamente às nove da noite para nos recolher.

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Deve haver haveres para que a gente siga existindo de, Laila Oliveira

Era domingo, manhã arrastada pela insólita vontade de seguir na existência. Olhava eu para os tantos e irremediáveis livros, compostos em filas desconexas nas prateleiras cheias de pó. Eles, todos eles, encarando—me como se culpa eu tivesse por me ausentar por tanto tempo de suas páginas—palavras. Olhei pela janela, observei o topo dos telhados, adentrei algumas casas na esperança de saber um pouco mais sobre a vida dos que ali moravam. Nada! Apenas a escuridão e o vazio na mutua harmonia do domingo frio, de pouco sol e nuvens.

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Promessas de adulto

Pela escritora: Bia Tannuri

A idade avança, responsabilidades se multiplicam, chegam as marcas inevitáveis do tempo, que insiste em não dar trégua, dificultando o reconhecimento do rosto refletido no espelho, que encara e impõe sua imagem certeira sem margem a dúvidas a quem se refere.  

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O LONGO PERCURSO DAQUI ATÉ ESTOCOLMO

Por, Michele Fernandes

Na Academia Real de Ciências da Suécia, ouve o seu nome ser chamado. Percorre o longo corredor sobre um tapete vermelho e sob o calor esfuziante dos aplausos, aquecendo os cinco graus negativos lá de fora. Após ser laureado, um microfone se instala à sua frente. É este o momento de fazer o seu discurso. Tímido, havia preparado uma folha de caderno com o resumo da sua contribuição científica e algumas frases de agradecimento. Enquanto olhava pra sua família orgulhosa, todos com os olhos gotejantes de emoção, começou a proferir um breve, porém emocionado discurso em sueco.

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Esquecidas aventuras

Por, Josi Siqueira

A vida tem passado rápido mas eu não me arrependo, não. Eu quero mais é aproveitar cada tiquinho que tiver direito. Ô, senhora, tu não vai comprar não? Vai só olhar, é? Ah, se eu cobrasse para as pessoas olharem minhas artes. Não é fácil fazer isso aqui, você sabe. Mas como eu ia dizendo, eu quero mesmo é desbundar. Quero fazer essas coisas doidas que a garotada faz. Dançar funk, quero dançar funk. Rebolar com a raba no chão, não é como dizem? Que foi, menina? Tá me achando doida, é? Aqui não tem meias palavras, a verdade pode ser feia mas é melhor que as mentiras cheias de floreios.

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3 Poemas do livro: Depois do Outono de, Érika Freire

Depois do Outono, o livro de poesias da escritora e jornalista Érika Freire, lançado em 2018 pela editora Urutau.

Há algum tempo atrás, eu apresentei a Érika pra vocês aqui no blog, se você ainda não viu, aqui está o dia da estréia dela. Nesse dia, contei um pouco sobre quem é Érika Freire, o que ela faz, do que ela gosta e comentei um pouco sobre seu livro, Depois do Outono.

Hoje, eu trago pra vocês, 3 poemas de Depois do Outono para que vocês possam apreciar essa belezinha e conhecer melhor o trabalho da autora. Confiram:

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Amor de hospício

Pela colunista: Mara Vanessa Torres

Uma tempestade cai sobre Santana dos Montes. As ruas da cidade estão cobertas por água e lama. Velhas construções coloniais seguem imperiosas e despreocupadas, com a força de quem já enfrentou dilúvios ainda maiores que aquele através dos séculos. Em uma casa humilde, próxima à igreja de Sant’ Ana, a idosa se prepara para mais uma visita. Usando o vestido lilás costurado há alguns dias, ela procura o gerânio que retirou do quintal logo cedo. Quer colocá-lo como adereço no cabelo. Precisa se apressar. Quando a chuva diminuir um pouco o ritmo, ela não irá perder nem mais um segundo dentro de casa.

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