Alda Santos

Quando não estou em mim, de Alda Santos

A semana havia sido agitada, meu cérebro trazia uma sobrecarga psíquica enorme, o corpo doía como se tivesse sido castigado, eu andava descrente de tudo, a única coisa que eu tinha certeza era de que havia uma pilha de poemas novos para ler…

Cada poema de, Alda Santos é como uma espécie de viagem que fazemos para dentro de nós e desejamos nunca mais voltar para a superfície da realidade. A autora consegue proporcionar através de poemas e prosas poéticas, um contato diferente com o universo.

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Olhos de melancia

Os olhos dela me lembravam melancia, caroços negros molhados prontos para serem engolidos junto a saliva. No lugar dos lábios, um grande traço revestido por dentes que infelizmente pouco sorriam. A observei por mais alguns instantes, então ela virou-se de lado meio encabulada. Decidi ir embora, o sol quase se ausentara. Dei dois passos curtos e os olhos dela apontaram para mim. Realmente, os olhos … Continuar lendo Olhos de melancia

@a_estranhamente

Olhar. Fracionar. Se redimir

Olhos seguem os passos pelo lado de dentro das vitrines, enquanto os olhos que transitam do lado de fora no carregar de seus próprios calcanhares grossos e cascudos, não são capazes de notar que uma grande orquestra de olhos funciona a medida que um conjunto de “anormalidades”, passa pelos trilhos e se vai para sempre.

Do lado de fora alguém sorriu sozinho. Através dos vidros frágeis podia-se notar olhares de repulsa e asco. É possível ver através de uma invisibilidade superficial o quanto os olhos são o próprio reflexo de ódio subjetivo. Continuar lendo “Olhar. Fracionar. Se redimir”

Capitão meu capitão

Homens com as costas coladas no cimento frio. Três crianças negras jogando bola. Ao longe um moletom rosa tenta sobressair o pescoço infantil que ninguém enxerga. Gays. Homos. Lésbicas. Travestis e bissexuais. Eu os vejo. Eu os observo. E os dedos masculinos pousam em cinturas famigeradas “femininas”. Ouço crianças gritarem enquanto correm pelo chão do Estado. E elas gritam: – É meu. É meu! Hora … Continuar lendo Capitão meu capitão

Rachadura pós sexo

Há uma rachadura na parede que encaro enquanto tenho meu corpo – nu – em cima do corpo de uma mulher.

Grudadas por suor em formato de cola é possível sentir as veias que sobressaltam nosso peito – pescoço – vulva.

Meus olhos estão fixos demais na rachadura. Fixos tão firmemente que duas gotas d’água pingam por cima dos ombros dela e caem diretamente no meu lençol azul sujo como todo o resto deste quarto.

Em minha mente eu só consigo pensar no quanto eu queria trepar até que minhas entranhas saíssem pelo meu grelo Continuar lendo “Rachadura pós sexo”

Terminal luz

As mãos e a ânsia andam apressados procurando os lábios que tanto tardaram a encontrar nossas bocas.

O cheiro exala o contraste da sua pele colada nos órgãos vitais do meu coração.

Nossos sorrisos estão agitados como cães que depositam sua felicidade em abrigos como recompensa. Continuar lendo “Terminal luz”

Foda-se. Vai tomar no cu. Foda-se novamente

Eu não consigo enxergar quem eu sou ou aonde é alto suficiente para que eu bata minhas asas imaginárias.

O mundo tem fome da minha essência covarde e eu tenho sede da sabedoria que eu mesma me emponho.

Estou vivendo longe da realidade já faz um tempo. Já faz um bom tempo que boto pra fritar meu próprio coro preto nas descargas das duchas refrescadas por conversas fortes demais para serem ditas à tona. Continuar lendo “Foda-se. Vai tomar no cu. Foda-se novamente”