Alda Santos

Quando não estou em mim, de Alda Santos

A semana havia sido agitada, meu cérebro trazia uma sobrecarga psíquica enorme, o corpo doía como se tivesse sido castigado, eu andava descrente de tudo, a única coisa que eu tinha certeza era de que havia uma pilha de poemas novos para ler…

Cada poema de, Alda Santos é como uma espécie de viagem que fazemos para dentro de nós e desejamos nunca mais voltar para a superfície da realidade. A autora consegue proporcionar através de poemas e prosas poéticas, um contato diferente com o universo.

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Vipassana, de Mara Romaro

Vipassana, de Mara Romaro

Era tarde, porém ainda era dia. Sol a pino, ruas a fervilhar em mares de corpos frescos e sedentos. Peguei o elevador, subi até o décimo primeiro andar, sentei-me em frente à piscina, retirei os sapatos dos pés, os molhei de forma rápida, retirei Vipassana da mochila, olhei novamente para os arredores de mim, deite-me com as costas coladas ao chão, olhei para o sol, me entreguei à leitura.

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Olhos de melancia

Os olhos dela me lembravam melancia, caroços negros molhados prontos para serem engolidos junto a saliva. No lugar dos lábios, um grande traço revestido por dentes que infelizmente pouco sorriam. A observei por mais alguns instantes, então ela virou-se de lado meio encabulada. Decidi ir embora, o sol quase se ausentara. Dei dois passos curtos e os olhos dela apontaram para mim. Realmente, os olhos … Continuar lendo Olhos de melancia

@a_estranhamente

Olhar. Fracionar. Se redimir

Olhos seguem os passos pelo lado de dentro das vitrines, enquanto os olhos que transitam do lado de fora no carregar de seus próprios calcanhares grossos e cascudos, não são capazes de notar que uma grande orquestra de olhos funciona a medida que um conjunto de “anormalidades”, passa pelos trilhos e se vai para sempre.

Do lado de fora alguém sorriu sozinho. Através dos vidros frágeis podia-se notar olhares de repulsa e asco. É possível ver através de uma invisibilidade superficial o quanto os olhos são o próprio reflexo de ódio subjetivo. Continuar lendo “Olhar. Fracionar. Se redimir”

Capitão meu capitão

Homens com as costas coladas no cimento frio. Três crianças negras jogando bola. Ao longe um moletom rosa tenta sobressair o pescoço infantil que ninguém enxerga. Gays. Homos. Lésbicas. Travestis e bissexuais. Eu os vejo. Eu os observo. E os dedos masculinos pousam em cinturas famigeradas “femininas”. Ouço crianças gritarem enquanto correm pelo chão do Estado. E elas gritam: – É meu. É meu! Hora … Continuar lendo Capitão meu capitão

LIVRETO | FOTO & POESIA

Escritores(as)!

Estou participando de um projeto construído e disseminado somente por mulheres periféricas da cidade de São Paulo. A ideia do projeto é democratizar o acesso a produção da arte, viabilizando a produção de mulheres artistas das periferias paulistanas para que seja possível retomar a função social da arte para a construção de uma sociedade menos desigual.

Diante disto, eu construí um livreto de foto & poesia para disseminar literatura em tempos tão sombrios como estes que estamos vivendo e todo dinheiro arrecadado com a venda dos livretos será utilizado para dar continuidade ao projeto Ciclos que é uma iniciativa da poeta Larissa Gonçalves para fomentar a cultura e firmar a resistência de mulheres periféricas na arte. Continuar lendo “LIVRETO | FOTO & POESIA”

Rachadura pós sexo

Há uma rachadura na parede que encaro enquanto tenho meu corpo – nu – em cima do corpo de uma mulher.

Grudadas por suor em formato de cola é possível sentir as veias que sobressaltam nosso peito – pescoço – vulva.

Meus olhos estão fixos demais na rachadura. Fixos tão firmemente que duas gotas d’água pingam por cima dos ombros dela e caem diretamente no meu lençol azul sujo como todo o resto deste quarto.

Em minha mente eu só consigo pensar no quanto eu queria trepar até que minhas entranhas saíssem pelo meu grelo Continuar lendo “Rachadura pós sexo”